Sem nome (1080 x 1080 px) (1920 x 1080 px)

Corredores do Medo

Corredores do Medo

 

Era para ser só o som do sinal. O barulho seco que anuncia o recreio, o fim da aula, o começo de uma nova lição. Mas nas escolas brasileiras, o que se ouve com mais frequência é o silêncio tenso da insegurança. Em vez de risadas, há olhares desconfiados. Em vez de entusiasmo, o medo.

 

Na Escola João de Zorzi, em Caxias do Sul, esse medo ganhou forma e faca. Uma professora foi esfaqueada em sala de aula por dois adolescentes. Ela sobreviveu. A escola também, ainda que ferida — não apenas em sua estrutura, mas em sua função mais básica: proteger e educar. O crime, premeditado, levou à prisão dos jovens e à transferência para unidades da Fase. Mas e os demais? Os alunos que assistiram? Os colegas que estudavam nas salas ao lado? O trauma não se prende. O medo não é transferido de comarca.

 

Dados do PISA já anunciavam a tragédia em números frios: 10% dos estudantes brasileiros não se sentem seguros dentro das escolas. No trajeto até elas, esse número salta para 19%. Quase um em cada cinco. Quando o medo começa antes mesmo da aula, a aprendizagem já se perde no caminho.

 

Em João de Zorzi, pais pediram reforço na segurança e apoio psicológico. A direção atendeu. Mas será suficiente? Há anos os educadores gritam — às vezes sem voz — que estão sozinhos diante de uma realidade que transborda os muros da escola. E quando o medo se instala, não há conteúdo que o desinstale.

 

A sala de aula deveria ser abrigo, sementeira de sonhos, terreno fértil para a transformação. Mas virou palco de episódios violentos, de bullying persistente, de agressões silenciosas e explícitas. A professora de Caxias está em casa, tentando “entender o que aconteceu”. Nós também. Porque entender é o primeiro passo para mudar. Ou ao menos, tentar.

 

Enquanto isso, seguimos — professores, pais, alunos — como soldados da educação em tempos de guerra invisível. Resistindo, ensinando, aprendendo. E torcendo para que os corredores escolares voltem a ecoar apenas o som das descobertas, e não o sussurro do medo.

Comments are closed.