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Mulheres Criminalizadas: Nova Lei Põe Aborto Acima de Crime de Estupro

Em um país onde os direitos das mulheres sempre estiveram sob constante ameaça, um novo capítulo de retrocesso parece estar sendo escrito. A Câmara dos Deputados aprovou em tramitação de urgência um projeto de lei que, se sancionado, equiparará a pena para quem realiza aborto à do crime de homicídio simples.

O texto, de autoria do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), propõe mudanças drásticas no Código Penal, estabelecendo de 6 a 20 anos de prisão para mulheres que interromperem uma gestação com mais de 22 semanas. Além disso, o projeto exclui a possibilidade de aborto legal em casos de gravidez resultante de estupro, prevista no artigo 128 do Código Penal.

O impacto dessa proposta é profundo. Conforme o texto do projeto, “se a gravidez resulta de estupro e houver viabilidade fetal, presumida em gestações acima de 22 semanas, não se aplicará a excludente de punibilidade prevista neste artigo”. Em outras palavras, mesmo em casos de estupro, se o feto for considerado viável, a interrupção da gestação será penalizada de maneira severa, incluindo médicos que realizarem o procedimento.

A legislação brasileira, promulgada em 1940, já impõe de 1 a 3 anos de detenção para mulheres que interrompem uma gravidez. Para quem realiza o procedimento, a pena sobe para quatro anos com consentimento da gestante e para dez anos sem consentimento. Atualmente, o aborto é permitido no Brasil em três situações: quando a mulher corre risco de morte e não há outra forma de salvá-la, em casos de fetos com anencefalia, e em casos de estupro. Contudo, com as alterações propostas, as mulheres que abortarem estarão sujeitas a punições mais severas do que aquelas previstas para estupradores.

A pena para estupro, hoje, varia de 6 a 10 anos de prisão, podendo ser ampliada para até 12 anos em casos de violência grave. Se a vítima for menor de 14 anos ou considerada vulnerável, a pena aumenta para 8 a 15 anos, podendo chegar a 20 anos se houver lesão corporal grave. Apenas nos casos em que o crime sexual resulta na morte da vítima a pena chega a 30 anos.

A tramitação de urgência do PL nº 1904 foi aprovada de forma simbólica, sem registro de votos individuais dos deputados, sugerindo um acordo prévio entre os parlamentares sobre o tema. O texto assinado por Cavalcante e outros 31 deputados federais argumenta que a falta de “limites gestacionais ao aborto” na lei atual não implica que os legisladores originais pretendiam permitir a prática até o nono mês de gestação.

Essa proposta da bancada evangélica é uma reação à decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que em maio suspendeu uma resolução do Conselho Federal de Medicina que proibia a assisto lia fetal para abortos legais após 22 semanas. A reação de algumas deputadas foi imediata e enérgica. “A extrema direita quer impor que crianças vítimas de estupro sejam mães. Isso é inaceitável! A sociedade brasileira não vai aceitar”, escreveu Erika Kokay (PT-DF) em uma rede social.

Sâmia Bomfim (PSOL-SP) também expressou sua indignação: “No Brasil, a grande maioria das vítimas de violência sexual são crianças. Anualmente, cerca de 20 mil meninas com menos de 14 anos se tornam mães. Os números são assustadores! Atacar o direito ao aborto em casos de estupro é destruir vidas e infâncias”, disse a deputada em uma postagem no X.

Essa situação nos leva a refletir sobre a inversão de valores e a vulnerabilidade das mulheres em um cenário legislativo que parece mais preocupado em controlar seus corpos do que em proteger suas vidas. No embate entre a moralidade imposta e os direitos humanos, quem sairá perdendo será, mais uma vez, a mulher. Enquanto as vítimas de violência sexual enfrentam traumas profundos e irreparáveis, uma legislação rígida e insensível as condena a um sofrimento ainda maior.

Na esteira dessa proposta, o futuro dos direitos reprodutivos no Brasil parece sombrio. A luta pelo direito ao próprio corpo é, acima de tudo, uma luta por dignidade, respeito e humanidade. E essa batalha, infelizmente, ainda está longe de ser vencida.

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