Gestão com regra móvel: o desafio de empreender no país dos adiamentos
Empreender no Brasil exige vocação para o improviso. Quem administra pessoas, turnos e contratos de trabalho conhece bem a realidade: a norma muda, volta, é suspensa, depois adiada. Agora, foi a vez da regra sobre o trabalho aos domingos e feriados. Outra vez. Quarta, para ser exato.
A obrigatoriedade de convenção coletiva para abrir as portas em feriados, que entraria em vigor em julho, foi empurrada para março de 2026. O que era para ser a consolidação de uma diretriz trabalhista, virou mais um capítulo da crônica da insegurança jurídica.
Do ponto de vista da gestão, o impacto vai além do jurídico. Um feriado sem definição é um planejamento comercial travado. É um RH em alerta, um setor operacional na dúvida e um jurídico tentando interpretar o que vale, quando e para quem. Em um país onde já é difícil manter previsibilidade financeira, agora falta também previsibilidade normativa.
Não se trata de ser contra a negociação coletiva. Ao contrário, ela é essencial em muitos setores. O problema é a falta de transição segura. O vai-e-volta legislativo transforma boas intenções em obstáculos operacionais. E a negociação, que deveria ser ponte entre os interesses, vira muro quando imposta sem tempo ou clareza.
O empresário não teme a regra clara. O que paralisa é a regra móvel. Porque enquanto Brasília decide o que vale, o empresário precisa decidir se abre ou fecha. E mais: precisa garantir que, seja qual for a escolha, ela esteja juridicamente protegida.
Em tempos de mudanças constantes, talvez o maior diferencial competitivo seja justamente este: conseguir manter o equilíbrio, mesmo quando o país insiste em dançar conforme a música — mesmo que ela mude no meio do compasso.


