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Entre o Doce e o Amargo

Entre o Doce e o Amargo: Uma Análise Jurídica do Morango do Amor

Era uma tarde comum no meu escritório, pilhas de processos espalhadas pela mesa e o Código de Defesa do Consumidor sempre à mão. No entanto, aquela sexta-feira trouxe um caso inusitado: o famigerado “morango do amor”.

 

O doce, que deveria ser símbolo de romance e delicadeza, ganhou os holofotes por razões um tanto amargas. Um vídeo viral mostrava uma confeiteira, sorridente, mordendo o caramelo duro que envolve o morango – até que o sorriso se transformou em careta. O dente cedeu. A internet explodiu em memes, risos e questionamentos.

 

Como advogada, não consegui apenas rir da cena. Vi ali um universo de implicações jurídicas: direito do consumidor, propaganda, responsabilidade civil. Quem morde um morango do amor espera doçura, não um potencial laudo odontológico.

 

Pensei no Código de Defesa do Consumidor. Ele garante informação clara, transparência sobre riscos, segurança no consumo. E aquele morango, duro como uma pedra, poderia ser considerado um produto perigoso? O confeiteiro teria o dever de avisar que o caramelo poderia quebrar dentes?

 

Enquanto refletia, outra notícia surgiu: uma edição “luxo” do morango, vendida a R$ 2.100, se esgotou em São Paulo. E, em poucos dias, surgiu uma versão ainda mais cara: R$ 2.300. O romance do doce parecia ter se tornado caso de concorrência, abuso de preços e, quem sabe, até especulação gastronômica.

 

No fundo, o morango do amor revelou algo maior: como nossas relações com o consumo, a vaidade e o desejo de exclusividade podem nos levar a aceitar pagar caro, ou até arriscar um dente, em nome de uma experiência.

 

Fechei o processo que estava analisando e olhei para a xícara de café. Sorri. Na advocacia, aprendemos que até um simples morango pode ser recheado de questões jurídicas – e que, por trás do açúcar, sempre pode haver algo duro de engolir.

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Gestão com regra móvel

Gestão com regra móvel: o desafio de empreender no país dos adiamentos

Empreender no Brasil exige vocação para o improviso. Quem administra pessoas, turnos e contratos de trabalho conhece bem a realidade: a norma muda, volta, é suspensa, depois adiada. Agora, foi a vez da regra sobre o trabalho aos domingos e feriados. Outra vez. Quarta, para ser exato.

 

A obrigatoriedade de convenção coletiva para abrir as portas em feriados, que entraria em vigor em julho, foi empurrada para março de 2026. O que era para ser a consolidação de uma diretriz trabalhista, virou mais um capítulo da crônica da insegurança jurídica.

 

Do ponto de vista da gestão, o impacto vai além do jurídico. Um feriado sem definição é um planejamento comercial travado. É um RH em alerta, um setor operacional na dúvida e um jurídico tentando interpretar o que vale, quando e para quem. Em um país onde já é difícil manter previsibilidade financeira, agora falta também previsibilidade normativa.

 

Não se trata de ser contra a negociação coletiva. Ao contrário, ela é essencial em muitos setores. O problema é a falta de transição segura. O vai-e-volta legislativo transforma boas intenções em obstáculos operacionais. E a negociação, que deveria ser ponte entre os interesses, vira muro quando imposta sem tempo ou clareza.

 

O empresário não teme a regra clara. O que paralisa é a regra móvel. Porque enquanto Brasília decide o que vale, o empresário precisa decidir se abre ou fecha. E mais: precisa garantir que, seja qual for a escolha, ela esteja juridicamente protegida.

 

Em tempos de mudanças constantes, talvez o maior diferencial competitivo seja justamente este: conseguir manter o equilíbrio, mesmo quando o país insiste em dançar conforme a música — mesmo que ela mude no meio do compasso.

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Luz, cofre e colapso

Luz, cofre e colapso

 

Dizem que o último a sair deve apagar a luz. Mas o Brasil é tão criativo que decidiu inverter a ordem: vai cortar a luz antes que alguém pense em sair. E não por economia de energia — mas por falta de dinheiro mesmo.

 

O Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, avisou: se o Congresso barrar a alta do IOF, a máquina pública para. Sem imposto, sem verba. Sem verba, sem luz, sem insumo, sem toner de impressora, sem papel higiênico. E, claro, sem o cafezinho — o verdadeiro motor da burocracia nacional.

 

Mas calma. Não se trata de um alarme falso. É só o Brasil sendo o Brasil. Aqui, tudo é dramático, tudo é urgente, tudo é cirúrgico. E Haddad, o cirurgião, precisa operar um paciente em coma com um bisturi enferrujado e uma lanterna de celular. A cirurgia é complexa, ele sabe. Só esqueceu de dizer que quem vai pagar o centro cirúrgico é você.

 

Sim, você. O cofre é você. O contribuinte é o plano A, B e C. O Brasil, no fim das contas, é um grande Pix coletivo.

 

E quando alguém ousa questionar o aumento de impostos, a resposta é pronta: colapso. A máquina trava, o país quebra, o caos se instala. Tudo isso por uma mera tentativa de respirar fora do sufoco fiscal.

 

Enquanto isso, nos bastidores, a novela segue: Virginia antecipa o drama da semana, e a mídia se esbalda em reconciliações, apostas e escândalos. Porque, entre uma PEC e um reality show, o brasileiro sempre acaba trocando a indignação pelo entretenimento.

 

No fundo, a pergunta não é mais quem vai apagar a luz. A pergunta é: quem vai pagar a conta?

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A Arte de Tropeçar em Si Mesmo

A Arte de Tropeçar em Si Mesmo

Na política, como na vida, às vezes o maior adversário não está do lado de fora. Está no espelho. E o espelho de Brasília tem refletido, nos últimos tempos, mais desalinho do que propósito.

O presidente Lula, em seu terceiro ato no Planalto, parece reviver o paradoxo do rei nu: cercado de ministros que falam demais, agem de menos e raramente na mesma direção. E enquanto ele sobrevoa o mundo em compromissos internacionais, aqui embaixo a cena é de um governo que tropeça em suas próprias pernas.

A coluna de Kotscho descreve o caos com a precisão de quem já viu muito: vazamentos estratégicos, recuos improvisados, derrotas silenciosas travestidas de conciliação. Haddad anuncia, Renan vaza. Marina propõe, Silveira desfaz. E Lula, qual maestro sem batuta, tenta reger uma orquestra que já não segue a partitura.

Não se trata apenas de má comunicação — embora essa também falhe com frequência —, mas de algo mais profundo: a falta de coesão, de projeto, de comando que una em torno de um rumo comum. É a “bateção de cabeça” que, mais que ruído, vira sintoma de uma engrenagem desregulada.

Como advogada, observo com inquietação o avanço sorrateiro das boiadas legislativas, a fragilidade da pauta ambiental e o encolhimento do debate público em meio a crises internas que ocupam todo o espaço. Em tempos de tanta instabilidade, até os princípios constitucionais parecem ecoar em silêncio.

A democracia se sustenta no dissenso, mas não sobrevive ao caos. O Executivo, sem articulação firme, cede terreno ao Congresso voraz — não por estratégia, mas por exaustão. E assim, enquanto a popularidade escorre pelas pesquisas e o otimismo murcha nas ruas, resta a pergunta que paira como névoa: Lula governa ou apenas administra crises?

Entre viagens e tropeços, o tempo corre. E, como no xadrez, o relógio não perdoa quem hesita demais.

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O Texto Se Perdeu

O Texto Se Perdeu

Outro dia, esbarrei com Platão sendo chamado de “cringe”. Confesso que me doeu. Não por um saudosismo barato, mas por uma constatação que já vinha me cutucando há tempos: perdemos o texto. E quando digo “texto”, não falo só da gramática, da ortografia ou da vírgula fora do lugar. Falo da ideia. Do pensamento. Do mergulho.

Nas vitrines das livrarias, os livros mais vendidos não contam histórias — ensinam como “vencer”, “atrair”, “manifestar”. Coloridos, com títulos imperativos, oferecem fórmulas prontas para viver sem pensar muito. A Bíblia virou autoajuda. Shakespeare, nome de filme. E Machado de Assis… esse ficou difícil. Relegado à estante dos vestibulares, virou bicho-papão em vez de espelho.

Enquanto isso, José de Alencar perdeu sua vaga para José Dirceu na lista dos mais lembrados. E perguntar “que livro você está lendo?” passou a ser ato de arrogância. Afinal, quem lê em tempos de Reels?

Na CPI, senadores jogam tigrinho. Na universidade, medicina virou franquia e biologia virou maquiagem. O advogado, esse que um dia foi a voz da razão, agora precisa implorar por dois mil reais e um pouco de respeito. O biólogo faz botox, e o filósofo? Ah, esse virou meme.

Mas não é só isso. Há algo mais fundo, mais grave. Algo que os dados confirmam com frieza: 84% dos brasileiros não compram livros. Trinta por cento não entendem parágrafos. E o pior: muitos não sentem falta disso. Perdemos a intimidade com a leitura como se fosse apenas um luxo de antigamente. Ler virou esnobismo. Pensar, rebeldia.

Sobraram os clubes dos pensadores — espaços de resistência onde ainda se tenta salvar um pouco de Machado, de Platão, de Clarice. Neles, a esperança se alimenta de miudezas: uma frase grifada, um debate acalorado, um livro emprestado. Nesses clubes, ainda se apaixonam por ideias. Ainda se lê com o coração aberto.

Mas do lado de fora, o texto continua se perdendo. E com ele, nos perdemos também.