O Texto Se Perdeu
Outro dia, esbarrei com Platão sendo chamado de “cringe”. Confesso que me doeu. Não por um saudosismo barato, mas por uma constatação que já vinha me cutucando há tempos: perdemos o texto. E quando digo “texto”, não falo só da gramática, da ortografia ou da vírgula fora do lugar. Falo da ideia. Do pensamento. Do mergulho.
Nas vitrines das livrarias, os livros mais vendidos não contam histórias — ensinam como “vencer”, “atrair”, “manifestar”. Coloridos, com títulos imperativos, oferecem fórmulas prontas para viver sem pensar muito. A Bíblia virou autoajuda. Shakespeare, nome de filme. E Machado de Assis… esse ficou difícil. Relegado à estante dos vestibulares, virou bicho-papão em vez de espelho.
Enquanto isso, José de Alencar perdeu sua vaga para José Dirceu na lista dos mais lembrados. E perguntar “que livro você está lendo?” passou a ser ato de arrogância. Afinal, quem lê em tempos de Reels?
Na CPI, senadores jogam tigrinho. Na universidade, medicina virou franquia e biologia virou maquiagem. O advogado, esse que um dia foi a voz da razão, agora precisa implorar por dois mil reais e um pouco de respeito. O biólogo faz botox, e o filósofo? Ah, esse virou meme.
Mas não é só isso. Há algo mais fundo, mais grave. Algo que os dados confirmam com frieza: 84% dos brasileiros não compram livros. Trinta por cento não entendem parágrafos. E o pior: muitos não sentem falta disso. Perdemos a intimidade com a leitura como se fosse apenas um luxo de antigamente. Ler virou esnobismo. Pensar, rebeldia.
Sobraram os clubes dos pensadores — espaços de resistência onde ainda se tenta salvar um pouco de Machado, de Platão, de Clarice. Neles, a esperança se alimenta de miudezas: uma frase grifada, um debate acalorado, um livro emprestado. Nesses clubes, ainda se apaixonam por ideias. Ainda se lê com o coração aberto.
Mas do lado de fora, o texto continua se perdendo. E com ele, nos perdemos também.


