QUANDO O DETERGENTE VIROU PARTIDO
Há algo de profundamente brasileiro na capacidade de transformar detergente em manifesto
ideológico.
Não se trata apenas de sabão, de embalagem amarela ou de prateleira de supermercado.
Trata-se da incapacidade contemporânea de aceitar que a realidade exista fora do campo da
política tribal. A espuma agora também tem lado.
A Anvisa informa possível contaminação microbiológica em determinados lotes de produtos. O
procedimento técnico manda recolher, analisar, revisar. É assim que funciona qualquer
sistema sanitário minimamente sério. O mesmo ocorre com alimentos, medicamentos,
cosméticos, vacinas e produtos de limpeza. Vigilância sanitária não é opinião; é prevenção.
Mas bastou surgir a marca Ypê para que uma parcela do país reagisse como se tivesse sido
decretado estado de sítio contra a liberdade. Influenciadores correram às redes sociais
exibindo detergentes como quem empunha bandeiras revolucionárias. Políticos posaram ao
lado de frascos de sabão como antigos monarcas exibiam espadas. Houve quem incentivasse o
consumo justamente porque a Anvisa alertou contra ele. O produto deixou de ser produto e virou senha ideológica.
O mais curioso é que ninguém parecia interessado em saber se havia ou não contaminação. O
fato técnico tornou-se irrelevante. O importante era identificar o inimigo político do momento.
Se a agência suspende, deve haver conspiração. Se fiscaliza, é perseguição. Se regula, é
censura. A racionalidade sanitária sucumbe diante do fanatismo de torcida.
E talvez este seja o traço mais inquietante do nosso tempo: a substituição da confiança
institucional pela fé emocional. Não importa mais quem decidiu, como decidiu ou com base
em quais laudos decidiu. Importa apenas descobrir “de que lado” está quem decidiu.
A ironia maior veio depois: descobriu-se que integrantes da própria estrutura técnica
relacionada à decisão haviam sido indicados durante o governo Bolsonaro. Mas já era tarde. A
narrativa estava pronta, embalada e distribuída. E narrativas possuem uma vantagem perigosa
sobre os fatos: elas dispensam verificação.
Vivemos uma época em que até bactérias precisam escolher posicionamento político antes de
contaminar alguém.
No passado, discutíamos ideias. Hoje discutimos detergentes.
E talvez seja exatamente esse o tamanho do naufrágio público brasileiro: transformamos
qualquer debate técnico em guerra cultural porque já não sabemos mais conviver com a
possibilidade de que certos assuntos pertençam simplesmente ao campo da realidade.
A ciência alerta. A política grita. A internet espuma.
E o país inteiro escorrega.












