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A Arte de Tropeçar em Si Mesmo

A Arte de Tropeçar em Si Mesmo

Na política, como na vida, às vezes o maior adversário não está do lado de fora. Está no espelho. E o espelho de Brasília tem refletido, nos últimos tempos, mais desalinho do que propósito.

O presidente Lula, em seu terceiro ato no Planalto, parece reviver o paradoxo do rei nu: cercado de ministros que falam demais, agem de menos e raramente na mesma direção. E enquanto ele sobrevoa o mundo em compromissos internacionais, aqui embaixo a cena é de um governo que tropeça em suas próprias pernas.

A coluna de Kotscho descreve o caos com a precisão de quem já viu muito: vazamentos estratégicos, recuos improvisados, derrotas silenciosas travestidas de conciliação. Haddad anuncia, Renan vaza. Marina propõe, Silveira desfaz. E Lula, qual maestro sem batuta, tenta reger uma orquestra que já não segue a partitura.

Não se trata apenas de má comunicação — embora essa também falhe com frequência —, mas de algo mais profundo: a falta de coesão, de projeto, de comando que una em torno de um rumo comum. É a “bateção de cabeça” que, mais que ruído, vira sintoma de uma engrenagem desregulada.

Como advogada, observo com inquietação o avanço sorrateiro das boiadas legislativas, a fragilidade da pauta ambiental e o encolhimento do debate público em meio a crises internas que ocupam todo o espaço. Em tempos de tanta instabilidade, até os princípios constitucionais parecem ecoar em silêncio.

A democracia se sustenta no dissenso, mas não sobrevive ao caos. O Executivo, sem articulação firme, cede terreno ao Congresso voraz — não por estratégia, mas por exaustão. E assim, enquanto a popularidade escorre pelas pesquisas e o otimismo murcha nas ruas, resta a pergunta que paira como névoa: Lula governa ou apenas administra crises?

Entre viagens e tropeços, o tempo corre. E, como no xadrez, o relógio não perdoa quem hesita demais.

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