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Luz, cofre e colapso

Luz, cofre e colapso

 

Dizem que o último a sair deve apagar a luz. Mas o Brasil é tão criativo que decidiu inverter a ordem: vai cortar a luz antes que alguém pense em sair. E não por economia de energia — mas por falta de dinheiro mesmo.

 

O Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, avisou: se o Congresso barrar a alta do IOF, a máquina pública para. Sem imposto, sem verba. Sem verba, sem luz, sem insumo, sem toner de impressora, sem papel higiênico. E, claro, sem o cafezinho — o verdadeiro motor da burocracia nacional.

 

Mas calma. Não se trata de um alarme falso. É só o Brasil sendo o Brasil. Aqui, tudo é dramático, tudo é urgente, tudo é cirúrgico. E Haddad, o cirurgião, precisa operar um paciente em coma com um bisturi enferrujado e uma lanterna de celular. A cirurgia é complexa, ele sabe. Só esqueceu de dizer que quem vai pagar o centro cirúrgico é você.

 

Sim, você. O cofre é você. O contribuinte é o plano A, B e C. O Brasil, no fim das contas, é um grande Pix coletivo.

 

E quando alguém ousa questionar o aumento de impostos, a resposta é pronta: colapso. A máquina trava, o país quebra, o caos se instala. Tudo isso por uma mera tentativa de respirar fora do sufoco fiscal.

 

Enquanto isso, nos bastidores, a novela segue: Virginia antecipa o drama da semana, e a mídia se esbalda em reconciliações, apostas e escândalos. Porque, entre uma PEC e um reality show, o brasileiro sempre acaba trocando a indignação pelo entretenimento.

 

No fundo, a pergunta não é mais quem vai apagar a luz. A pergunta é: quem vai pagar a conta?

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A Arte de Tropeçar em Si Mesmo

A Arte de Tropeçar em Si Mesmo

Na política, como na vida, às vezes o maior adversário não está do lado de fora. Está no espelho. E o espelho de Brasília tem refletido, nos últimos tempos, mais desalinho do que propósito.

O presidente Lula, em seu terceiro ato no Planalto, parece reviver o paradoxo do rei nu: cercado de ministros que falam demais, agem de menos e raramente na mesma direção. E enquanto ele sobrevoa o mundo em compromissos internacionais, aqui embaixo a cena é de um governo que tropeça em suas próprias pernas.

A coluna de Kotscho descreve o caos com a precisão de quem já viu muito: vazamentos estratégicos, recuos improvisados, derrotas silenciosas travestidas de conciliação. Haddad anuncia, Renan vaza. Marina propõe, Silveira desfaz. E Lula, qual maestro sem batuta, tenta reger uma orquestra que já não segue a partitura.

Não se trata apenas de má comunicação — embora essa também falhe com frequência —, mas de algo mais profundo: a falta de coesão, de projeto, de comando que una em torno de um rumo comum. É a “bateção de cabeça” que, mais que ruído, vira sintoma de uma engrenagem desregulada.

Como advogada, observo com inquietação o avanço sorrateiro das boiadas legislativas, a fragilidade da pauta ambiental e o encolhimento do debate público em meio a crises internas que ocupam todo o espaço. Em tempos de tanta instabilidade, até os princípios constitucionais parecem ecoar em silêncio.

A democracia se sustenta no dissenso, mas não sobrevive ao caos. O Executivo, sem articulação firme, cede terreno ao Congresso voraz — não por estratégia, mas por exaustão. E assim, enquanto a popularidade escorre pelas pesquisas e o otimismo murcha nas ruas, resta a pergunta que paira como névoa: Lula governa ou apenas administra crises?

Entre viagens e tropeços, o tempo corre. E, como no xadrez, o relógio não perdoa quem hesita demais.