Sem nome (1080 x 1080 px) (1920 x 1080 px) (2)

Quando a crise deixa de ser manchete e vira vizinha

Quando a crise deixa de ser manchete e vira vizinha

Dizem que a crise é invisível. Começa como número. Um dado isolado numa planilha de Excel, um gráfico que sobe ou desce nos telejornais, uma sigla que a gente repete sem entender: PIB, IPCA, SELIC. Mas ela vai se aproximando, primeiro pelos noticiários, depois pelas prateleiras dos mercados, pelas farmácias com seus frascos pela metade, até virar uma presença concreta. E então, a crise deixa de ser conceito e passa a ser rotina. Deixa de ser manchete e vira vizinha.

Café trancado atrás das grades. Azeite com lacre de segurança. Carne como item de luxo — não apenas em restaurantes, mas nas mesas dos brasileiros. Essa não é uma distopia futurista. É o retrato do presente, esculpido pela instabilidade econômica e pela irresponsabilidade fiscal. A inflação não mora só nos boletos. Mora no carrinho de compras, nas refeições reduzidas, no remédio que agora é comprado em dose, não em caixa.

Seis em cada dez brasileiros passaram a comer menos. Oitenta por cento mudaram os hábitos. Quase quarenta por cento deixaram de comprar remédio. Esses números são vozes que ecoam nos corredores dos fóruns, nos balcões de atendimento, nas filas do INSS, nos e-mails que recebo todos os dias com histórias de quem precisa de ajuda para manter o mínimo: dignidade.

Como advogada, vejo a crise nos processos. Na multiplicação de ações por revisão contratual, nas execuções de aluguéis, nas disputas familiares em que o problema não é só afetivo — é financeiro. Vejo também no aumento dos pedidos de gratuidade judiciária, nas mães solo que sustentam lares com uma coragem que o Estado insiste em ignorar.

Como cidadã, me angustia perceber que estamos caminhando para um cenário anunciado: um 2027 em que a crise será ainda mais profunda — não por falta de avisos, mas por escolhas políticas. A democracia, ainda que imperfeita, nos dá o direito de escolher os rumos do país. Mas precisamos fazer isso com responsabilidade. Voto não é grito de revolta. É ferramenta de construção — ou de destruição.

É verdade que não adianta só reclamar. Mas também não adianta empurrar soluções fáceis como se fossem fórmula mágica. “Dolarize suas reservas”, dizem — para quem não tem nem poupança. “Invista na internet”, aconselham — como se bastasse vontade para empreender num país onde abrir uma empresa é uma maratona de obstáculos. A solução real precisa de políticas públicas, mas também de participação cidadã.

A crise pode ainda não ter chegado na sua casa. Mas ela chegou na casa de quem compra de você, de quem paga seu salário, de quem sustenta a economia real — aquela que pulsa nas feiras, nos pequenos comércios, nas mãos calejadas. É hora de se preparar, sim. Mas também é hora de se posicionar.

Porque a crise, quando vira regra, não é mais crise. É projeto.

Comments are closed.