ChatGPT Image 12 de mai. de 2026, 09_37_35

QUANDO O DETERGENTE VIROU PARTIDO

QUANDO O DETERGENTE VIROU PARTIDO

Há algo de profundamente brasileiro na capacidade de transformar detergente em manifesto
ideológico.

Não se trata apenas de sabão, de embalagem amarela ou de prateleira de supermercado.
Trata-se da incapacidade contemporânea de aceitar que a realidade exista fora do campo da
política tribal. A espuma agora também tem lado.

A Anvisa informa possível contaminação microbiológica em determinados lotes de produtos. O
procedimento técnico manda recolher, analisar, revisar. É assim que funciona qualquer
sistema sanitário minimamente sério. O mesmo ocorre com alimentos, medicamentos,
cosméticos, vacinas e produtos de limpeza. Vigilância sanitária não é opinião; é prevenção.

Mas bastou surgir a marca Ypê para que uma parcela do país reagisse como se tivesse sido
decretado estado de sítio contra a liberdade. Influenciadores correram às redes sociais
exibindo detergentes como quem empunha bandeiras revolucionárias. Políticos posaram ao
lado de frascos de sabão como antigos monarcas exibiam espadas. Houve quem incentivasse o
consumo justamente porque a Anvisa alertou contra ele. O produto deixou de ser produto e virou senha ideológica.

O mais curioso é que ninguém parecia interessado em saber se havia ou não contaminação. O
fato técnico tornou-se irrelevante. O importante era identificar o inimigo político do momento.
Se a agência suspende, deve haver conspiração. Se fiscaliza, é perseguição. Se regula, é
censura. A racionalidade sanitária sucumbe diante do fanatismo de torcida.

E talvez este seja o traço mais inquietante do nosso tempo: a substituição da confiança
institucional pela fé emocional. Não importa mais quem decidiu, como decidiu ou com base
em quais laudos decidiu. Importa apenas descobrir “de que lado” está quem decidiu.

A ironia maior veio depois: descobriu-se que integrantes da própria estrutura técnica
relacionada à decisão haviam sido indicados durante o governo Bolsonaro. Mas já era tarde. A
narrativa estava pronta, embalada e distribuída. E narrativas possuem uma vantagem perigosa
sobre os fatos: elas dispensam verificação.

Vivemos uma época em que até bactérias precisam escolher posicionamento político antes de
contaminar alguém.

No passado, discutíamos ideias. Hoje discutimos detergentes.

E talvez seja exatamente esse o tamanho do naufrágio público brasileiro: transformamos
qualquer debate técnico em guerra cultural porque já não sabemos mais conviver com a
possibilidade de que certos assuntos pertençam simplesmente ao campo da realidade.

A ciência alerta. A política grita. A internet espuma.
E o país inteiro escorrega.

ChatGPT Image 7 de out. de 2025, 21_30_39

A digital do futuro

Lá vem o futuro, de novo. E dessa vez ele pede o seu dedo.

 

A partir de novembro de 2025, quem quiser continuar recebendo aposentadoria, pensão ou o velho BPC vai precisar provar que é — literalmente — quem diz ser.
Nada de assinatura, RG amarelado ou senha esquecida. Agora, é o rosto, o toque, a impressão digital que confirmam a existência oficial de cada cidadão perante o Estado. A máquina vai olhar pra nós e dizer: “sim, este é você”.

 

Parece avanço. E é.

Em tempos de fraudes eletrônicas, fantasmas que recebem benefícios e golpistas que se multiplicam mais rápido que filas de INSS, usar a biometria é sinal de modernização. Um país que se organiza, que confere segurança, que pretende proteger os recursos públicos.

 

Mas há um outro lado, silencioso, e que merece pausa: o da dona Maria, de setenta e oito anos, que mora no interior e nunca ouviu falar em Gov.br. Ou do seu José, aposentado, cuja digital mal aparece porque o tempo lhe gastou os dedos.
Eles também terão de provar, diante do Estado digital, que continuam existindo — e isso, ironicamente, pode ser mais difícil do que parece.

 

O governo promete transição suave, nenhuma suspensão “injusta”, cronograma cuidadoso. Mas quem conhece o cotidiano previdenciário sabe: entre a promessa e a prática há um abismo de protocolos, sistemas que caem e balcões lotados.
E a tecnologia, que deveria aproximar, às vezes afasta. Especialmente quando falta internet, acolhimento e humanidade.

 

A biometria obrigatória é mais do que uma medida administrativa — é um símbolo.

Simboliza a era em que o Estado quer nos ver através de códigos e algoritmos. Onde o “eu” jurídico passa a ser um dado, um pixel, um conjunto de pontos reconhecíveis por uma máquina.

Talvez estejamos assistindo à transformação do direito à identidade em direito à identificação.

E, ainda assim, há beleza nisso tudo: um país que busca se reinventar, que tenta conciliar a burocracia de papel com o toque digital.

 

Mas será preciso mais do que tecnologia.

Será preciso cuidado. Escuta. Paciência.

Porque o Brasil é feito de gente — e nem sempre a vida cabe dentro de um aplicativo.

 

Em novembro de 2025, o INSS vai pedir o seu dedo, o seu rosto, o seu tempo.
Mas tomara que, junto, venha algo que não se escaneia: a sensibilidade de entender que por trás de cada digital há uma história. E que o futuro, se quiser ser justo, precisa aprender a reconhecer isso também.