ChatGPT Image 10 de ago. de 2026, 16_01_57

O que a máquina não sabe fazer

O que a máquina não sabe fazer

São sete e dez da manhã e a caixa de entrada já tem quarenta e três mensagens não lidas. Três intimações, um cliente perguntando pela quinta vez se saiu a perícia, um RH pedindo parecer sobre atestado, uma planilha de prazos que pisca em vermelho na coluna da direita. Antes de o café esfriar, a inteligência artificial já leu o acórdão de cento e oito páginas, separou os pontos controvertidos, sugeriu três precedentes e ofereceu um esqueleto de recurso. Levou onze segundos. Eu levaria a manhã inteira.

Um levantamento da AASP com mais de mil e cem profissionais mostrou que 87,4% dos advogados brasileiros já usam alguma ferramenta de IA no trabalho, e que 84,3% percebem ganho real de produtividade, sobretudo em pesquisa, organização de documentos e análise de jurisprudência. Quase todos, 95,6%, acham que a profissão vai mudar profundamente na próxima década. Confesso que li esses números com um alívio meio envergonhado, do tipo que a gente sente ao descobrir que não é só com a gente. A advocacia sempre teve um pudor esquisito com a confissão de cansaço.

Porque é disso que se trata, no fundo. A tecnologia não chegou porque alguém a achou elegante. Ela chegou porque o volume ficou desumano. Tribunais eletrônicos que não conversam entre si, uma legislação trabalhista e tributária que muda de humor a cada semestre, prazos em dias úteis contados em três sistemas diferentes, e o mesmo advogado que precisa saber se aquele PPP menciona ruído acima de oitenta e cinco decibéis e se a colaboradora tem estabilidade acidentária. Ninguém aguenta esse peso com fichário e boa vontade.

Mas há uma linha, e ela é fina.

Semana dessas, li uma minuta que a máquina havia preparado. Estava impecável. Tese redonda, citações no lugar, concordância perfeita, um daqueles textos que deslizam. E era inteiramente inútil, porque o caso não era aquele. A ferramenta havia entendido a pergunta, não a pessoa. Faltava o detalhe que só existe na conversa de balcão, o parente que assinou a rescisão por medo, o motivo real pelo qual aquele contrato foi feito daquele jeito. A IA compreende texto. O advogado compreende contexto. São coisas parecidas de longe e absolutamente distintas de perto.

Talvez seja por isso que a OAB tenha caminhado, com prudência e sem alarde, para diretrizes que assentam dois pilares bastante simples: nada gerado por algoritmo dispensa supervisão humana, e a responsabilidade pelo resultado continua sendo, integralmente, de quem assina. É uma regra quase óbvia, dessas que só precisam ser escritas porque alguém, em algum lugar, achou que podia ser diferente.

Gosto de pensar nessa responsabilidade como o último território verdadeiramente nosso. A máquina não perde o sono. Não sente o estômago apertar quando o cliente é uma senhora de setenta e dois anos que trabalhou trinta e sete e recebeu indeferimento por falta de qualidade de segurado. Não hesita, e a hesitação, quando é boa, é uma forma refinada de inteligência. É a pausa em que a gente pergunta se aquela tese, tecnicamente sustentável, é a que melhor serve àquela pessoa. Nenhum modelo de linguagem tem esse tipo de dúvida, porque nenhum modelo de linguagem tem o que perder.

Há também a questão dos dados, que no nosso ofício nunca é detalhe. Trabalhamos com prontuário, com laudo psicológico, com processo em segredo de justiça, com salário e com doença de gente que confiou aquilo a nós e a mais ninguém. Jogar esse material em qualquer ferramenta genérica, sem governança, sem contrato, sem saber onde a informação repousa depois, não é modernidade. É imprudência com nome bonito. A pesquisa da AASP mostra que 90,3% dos profissionais preferem soluções pensadas para o ecossistema jurídico brasileiro, e desconfio que isso diga menos sobre patriotismo tecnológico e mais sobre instinto de sobrevivência.

O que me tranquiliza, no fim, é uma constatação quase banal. Toda vez que a tecnologia tirou uma tarefa das mãos do advogado, ela devolveu tempo, e o tempo devolvido foi ocupado por aquilo que a profissão tem de menos automatizável. O carbono deu lugar à impressora, a impressora ao peticionamento eletrônico, e ninguém sente falta de nada disso. O que sobrou, em cada rodada, foi a parte difícil e boa: ouvir, decidir, escolher o argumento, sustentar a escolha diante de um juiz que vai discordar.

A IA lê. Ela não olha nos olhos. Ela redige. Não responde por nada.

No rodapé da petição continua havendo um nome, um número de inscrição e uma pessoa que, se errar, erra em nome próprio. É pouco, diante de tanta máquina, e é exatamente tudo

ChatGPT Image 7 de out. de 2025, 21_30_39

A digital do futuro

Lá vem o futuro, de novo. E dessa vez ele pede o seu dedo.

 

A partir de novembro de 2025, quem quiser continuar recebendo aposentadoria, pensão ou o velho BPC vai precisar provar que é — literalmente — quem diz ser.
Nada de assinatura, RG amarelado ou senha esquecida. Agora, é o rosto, o toque, a impressão digital que confirmam a existência oficial de cada cidadão perante o Estado. A máquina vai olhar pra nós e dizer: “sim, este é você”.

 

Parece avanço. E é.

Em tempos de fraudes eletrônicas, fantasmas que recebem benefícios e golpistas que se multiplicam mais rápido que filas de INSS, usar a biometria é sinal de modernização. Um país que se organiza, que confere segurança, que pretende proteger os recursos públicos.

 

Mas há um outro lado, silencioso, e que merece pausa: o da dona Maria, de setenta e oito anos, que mora no interior e nunca ouviu falar em Gov.br. Ou do seu José, aposentado, cuja digital mal aparece porque o tempo lhe gastou os dedos.
Eles também terão de provar, diante do Estado digital, que continuam existindo — e isso, ironicamente, pode ser mais difícil do que parece.

 

O governo promete transição suave, nenhuma suspensão “injusta”, cronograma cuidadoso. Mas quem conhece o cotidiano previdenciário sabe: entre a promessa e a prática há um abismo de protocolos, sistemas que caem e balcões lotados.
E a tecnologia, que deveria aproximar, às vezes afasta. Especialmente quando falta internet, acolhimento e humanidade.

 

A biometria obrigatória é mais do que uma medida administrativa — é um símbolo.

Simboliza a era em que o Estado quer nos ver através de códigos e algoritmos. Onde o “eu” jurídico passa a ser um dado, um pixel, um conjunto de pontos reconhecíveis por uma máquina.

Talvez estejamos assistindo à transformação do direito à identidade em direito à identificação.

E, ainda assim, há beleza nisso tudo: um país que busca se reinventar, que tenta conciliar a burocracia de papel com o toque digital.

 

Mas será preciso mais do que tecnologia.

Será preciso cuidado. Escuta. Paciência.

Porque o Brasil é feito de gente — e nem sempre a vida cabe dentro de um aplicativo.

 

Em novembro de 2025, o INSS vai pedir o seu dedo, o seu rosto, o seu tempo.
Mas tomara que, junto, venha algo que não se escaneia: a sensibilidade de entender que por trás de cada digital há uma história. E que o futuro, se quiser ser justo, precisa aprender a reconhecer isso também.