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Entre o Doce e o Amargo

Entre o Doce e o Amargo: Uma Análise Jurídica do Morango do Amor

Era uma tarde comum no meu escritório, pilhas de processos espalhadas pela mesa e o Código de Defesa do Consumidor sempre à mão. No entanto, aquela sexta-feira trouxe um caso inusitado: o famigerado “morango do amor”.

 

O doce, que deveria ser símbolo de romance e delicadeza, ganhou os holofotes por razões um tanto amargas. Um vídeo viral mostrava uma confeiteira, sorridente, mordendo o caramelo duro que envolve o morango – até que o sorriso se transformou em careta. O dente cedeu. A internet explodiu em memes, risos e questionamentos.

 

Como advogada, não consegui apenas rir da cena. Vi ali um universo de implicações jurídicas: direito do consumidor, propaganda, responsabilidade civil. Quem morde um morango do amor espera doçura, não um potencial laudo odontológico.

 

Pensei no Código de Defesa do Consumidor. Ele garante informação clara, transparência sobre riscos, segurança no consumo. E aquele morango, duro como uma pedra, poderia ser considerado um produto perigoso? O confeiteiro teria o dever de avisar que o caramelo poderia quebrar dentes?

 

Enquanto refletia, outra notícia surgiu: uma edição “luxo” do morango, vendida a R$ 2.100, se esgotou em São Paulo. E, em poucos dias, surgiu uma versão ainda mais cara: R$ 2.300. O romance do doce parecia ter se tornado caso de concorrência, abuso de preços e, quem sabe, até especulação gastronômica.

 

No fundo, o morango do amor revelou algo maior: como nossas relações com o consumo, a vaidade e o desejo de exclusividade podem nos levar a aceitar pagar caro, ou até arriscar um dente, em nome de uma experiência.

 

Fechei o processo que estava analisando e olhei para a xícara de café. Sorri. Na advocacia, aprendemos que até um simples morango pode ser recheado de questões jurídicas – e que, por trás do açúcar, sempre pode haver algo duro de engolir.

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Postar Também é Assumir: O Peso das Palavras na Internet

Na era em que tudo cabe em uma tela, os dedos se tornaram canetas velozes e os celulares, vitrines para o mundo. Um deslizar de polegar, um clique impensado, e pronto: uma imagem, uma frase, um comentário atravessam fronteiras invisíveis, alcançam desconhecidos e, muitas vezes, não voltam mais.

 

É aí que mora a responsabilidade, silenciosa, mas gigante. Porque publicar ou compartilhar algo não é apenas “postar”; é assumir que aquele conteúdo carrega o seu nome, a sua voz, a sua escolha. E toda escolha, cedo ou tarde, cobra um preço.

 

Quantas vezes ouvimos “era só uma brincadeira” ou “eu não tive intenção de ofender”? Mas a verdade é que a internet não lê intenções, só mensagens. A legenda maldosa, a foto compartilhada sem permissão, o meme que humilha alguém, tudo isso ganha vida própria, escorre para fora das conversas privadas e, muitas vezes, machuca de forma irreversível.

 

O caso das alunas que ofenderam a professora no WhatsApp é só um retrato desse tempo: acreditaram que os status eram um espaço fechado, mas descobriram que a rede é feita de frestas. E por essas frestas, a honra da docente foi exposta, sua dignidade ferida.

 

Publicar e compartilhar exige mais do que reflexo: exige reflexão. A tela pode ser pequena, mas a repercussão é imensa. Porque cada palavra, cada imagem, carrega um pedaço do que somos, e pode, em um instante, construir ou destruir.

 

No fim, a lição é simples, mas necessária: responsabilidade digital não é opcional. É dever de quem fala, de quem compartilha, de quem clica. Afinal, o mundo virtual tem consequências muito reais.

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Gestão com regra móvel

Gestão com regra móvel: o desafio de empreender no país dos adiamentos

Empreender no Brasil exige vocação para o improviso. Quem administra pessoas, turnos e contratos de trabalho conhece bem a realidade: a norma muda, volta, é suspensa, depois adiada. Agora, foi a vez da regra sobre o trabalho aos domingos e feriados. Outra vez. Quarta, para ser exato.

 

A obrigatoriedade de convenção coletiva para abrir as portas em feriados, que entraria em vigor em julho, foi empurrada para março de 2026. O que era para ser a consolidação de uma diretriz trabalhista, virou mais um capítulo da crônica da insegurança jurídica.

 

Do ponto de vista da gestão, o impacto vai além do jurídico. Um feriado sem definição é um planejamento comercial travado. É um RH em alerta, um setor operacional na dúvida e um jurídico tentando interpretar o que vale, quando e para quem. Em um país onde já é difícil manter previsibilidade financeira, agora falta também previsibilidade normativa.

 

Não se trata de ser contra a negociação coletiva. Ao contrário, ela é essencial em muitos setores. O problema é a falta de transição segura. O vai-e-volta legislativo transforma boas intenções em obstáculos operacionais. E a negociação, que deveria ser ponte entre os interesses, vira muro quando imposta sem tempo ou clareza.

 

O empresário não teme a regra clara. O que paralisa é a regra móvel. Porque enquanto Brasília decide o que vale, o empresário precisa decidir se abre ou fecha. E mais: precisa garantir que, seja qual for a escolha, ela esteja juridicamente protegida.

 

Em tempos de mudanças constantes, talvez o maior diferencial competitivo seja justamente este: conseguir manter o equilíbrio, mesmo quando o país insiste em dançar conforme a música — mesmo que ela mude no meio do compasso.

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Luz, cofre e colapso

Luz, cofre e colapso

 

Dizem que o último a sair deve apagar a luz. Mas o Brasil é tão criativo que decidiu inverter a ordem: vai cortar a luz antes que alguém pense em sair. E não por economia de energia — mas por falta de dinheiro mesmo.

 

O Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, avisou: se o Congresso barrar a alta do IOF, a máquina pública para. Sem imposto, sem verba. Sem verba, sem luz, sem insumo, sem toner de impressora, sem papel higiênico. E, claro, sem o cafezinho — o verdadeiro motor da burocracia nacional.

 

Mas calma. Não se trata de um alarme falso. É só o Brasil sendo o Brasil. Aqui, tudo é dramático, tudo é urgente, tudo é cirúrgico. E Haddad, o cirurgião, precisa operar um paciente em coma com um bisturi enferrujado e uma lanterna de celular. A cirurgia é complexa, ele sabe. Só esqueceu de dizer que quem vai pagar o centro cirúrgico é você.

 

Sim, você. O cofre é você. O contribuinte é o plano A, B e C. O Brasil, no fim das contas, é um grande Pix coletivo.

 

E quando alguém ousa questionar o aumento de impostos, a resposta é pronta: colapso. A máquina trava, o país quebra, o caos se instala. Tudo isso por uma mera tentativa de respirar fora do sufoco fiscal.

 

Enquanto isso, nos bastidores, a novela segue: Virginia antecipa o drama da semana, e a mídia se esbalda em reconciliações, apostas e escândalos. Porque, entre uma PEC e um reality show, o brasileiro sempre acaba trocando a indignação pelo entretenimento.

 

No fundo, a pergunta não é mais quem vai apagar a luz. A pergunta é: quem vai pagar a conta?

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A Arte de Tropeçar em Si Mesmo

A Arte de Tropeçar em Si Mesmo

Na política, como na vida, às vezes o maior adversário não está do lado de fora. Está no espelho. E o espelho de Brasília tem refletido, nos últimos tempos, mais desalinho do que propósito.

O presidente Lula, em seu terceiro ato no Planalto, parece reviver o paradoxo do rei nu: cercado de ministros que falam demais, agem de menos e raramente na mesma direção. E enquanto ele sobrevoa o mundo em compromissos internacionais, aqui embaixo a cena é de um governo que tropeça em suas próprias pernas.

A coluna de Kotscho descreve o caos com a precisão de quem já viu muito: vazamentos estratégicos, recuos improvisados, derrotas silenciosas travestidas de conciliação. Haddad anuncia, Renan vaza. Marina propõe, Silveira desfaz. E Lula, qual maestro sem batuta, tenta reger uma orquestra que já não segue a partitura.

Não se trata apenas de má comunicação — embora essa também falhe com frequência —, mas de algo mais profundo: a falta de coesão, de projeto, de comando que una em torno de um rumo comum. É a “bateção de cabeça” que, mais que ruído, vira sintoma de uma engrenagem desregulada.

Como advogada, observo com inquietação o avanço sorrateiro das boiadas legislativas, a fragilidade da pauta ambiental e o encolhimento do debate público em meio a crises internas que ocupam todo o espaço. Em tempos de tanta instabilidade, até os princípios constitucionais parecem ecoar em silêncio.

A democracia se sustenta no dissenso, mas não sobrevive ao caos. O Executivo, sem articulação firme, cede terreno ao Congresso voraz — não por estratégia, mas por exaustão. E assim, enquanto a popularidade escorre pelas pesquisas e o otimismo murcha nas ruas, resta a pergunta que paira como névoa: Lula governa ou apenas administra crises?

Entre viagens e tropeços, o tempo corre. E, como no xadrez, o relógio não perdoa quem hesita demais.

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O Texto Se Perdeu

O Texto Se Perdeu

Outro dia, esbarrei com Platão sendo chamado de “cringe”. Confesso que me doeu. Não por um saudosismo barato, mas por uma constatação que já vinha me cutucando há tempos: perdemos o texto. E quando digo “texto”, não falo só da gramática, da ortografia ou da vírgula fora do lugar. Falo da ideia. Do pensamento. Do mergulho.

Nas vitrines das livrarias, os livros mais vendidos não contam histórias — ensinam como “vencer”, “atrair”, “manifestar”. Coloridos, com títulos imperativos, oferecem fórmulas prontas para viver sem pensar muito. A Bíblia virou autoajuda. Shakespeare, nome de filme. E Machado de Assis… esse ficou difícil. Relegado à estante dos vestibulares, virou bicho-papão em vez de espelho.

Enquanto isso, José de Alencar perdeu sua vaga para José Dirceu na lista dos mais lembrados. E perguntar “que livro você está lendo?” passou a ser ato de arrogância. Afinal, quem lê em tempos de Reels?

Na CPI, senadores jogam tigrinho. Na universidade, medicina virou franquia e biologia virou maquiagem. O advogado, esse que um dia foi a voz da razão, agora precisa implorar por dois mil reais e um pouco de respeito. O biólogo faz botox, e o filósofo? Ah, esse virou meme.

Mas não é só isso. Há algo mais fundo, mais grave. Algo que os dados confirmam com frieza: 84% dos brasileiros não compram livros. Trinta por cento não entendem parágrafos. E o pior: muitos não sentem falta disso. Perdemos a intimidade com a leitura como se fosse apenas um luxo de antigamente. Ler virou esnobismo. Pensar, rebeldia.

Sobraram os clubes dos pensadores — espaços de resistência onde ainda se tenta salvar um pouco de Machado, de Platão, de Clarice. Neles, a esperança se alimenta de miudezas: uma frase grifada, um debate acalorado, um livro emprestado. Nesses clubes, ainda se apaixonam por ideias. Ainda se lê com o coração aberto.

Mas do lado de fora, o texto continua se perdendo. E com ele, nos perdemos também.

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Quando a crise deixa de ser manchete e vira vizinha

Quando a crise deixa de ser manchete e vira vizinha

Dizem que a crise é invisível. Começa como número. Um dado isolado numa planilha de Excel, um gráfico que sobe ou desce nos telejornais, uma sigla que a gente repete sem entender: PIB, IPCA, SELIC. Mas ela vai se aproximando, primeiro pelos noticiários, depois pelas prateleiras dos mercados, pelas farmácias com seus frascos pela metade, até virar uma presença concreta. E então, a crise deixa de ser conceito e passa a ser rotina. Deixa de ser manchete e vira vizinha.

Café trancado atrás das grades. Azeite com lacre de segurança. Carne como item de luxo — não apenas em restaurantes, mas nas mesas dos brasileiros. Essa não é uma distopia futurista. É o retrato do presente, esculpido pela instabilidade econômica e pela irresponsabilidade fiscal. A inflação não mora só nos boletos. Mora no carrinho de compras, nas refeições reduzidas, no remédio que agora é comprado em dose, não em caixa.

Seis em cada dez brasileiros passaram a comer menos. Oitenta por cento mudaram os hábitos. Quase quarenta por cento deixaram de comprar remédio. Esses números são vozes que ecoam nos corredores dos fóruns, nos balcões de atendimento, nas filas do INSS, nos e-mails que recebo todos os dias com histórias de quem precisa de ajuda para manter o mínimo: dignidade.

Como advogada, vejo a crise nos processos. Na multiplicação de ações por revisão contratual, nas execuções de aluguéis, nas disputas familiares em que o problema não é só afetivo — é financeiro. Vejo também no aumento dos pedidos de gratuidade judiciária, nas mães solo que sustentam lares com uma coragem que o Estado insiste em ignorar.

Como cidadã, me angustia perceber que estamos caminhando para um cenário anunciado: um 2027 em que a crise será ainda mais profunda — não por falta de avisos, mas por escolhas políticas. A democracia, ainda que imperfeita, nos dá o direito de escolher os rumos do país. Mas precisamos fazer isso com responsabilidade. Voto não é grito de revolta. É ferramenta de construção — ou de destruição.

É verdade que não adianta só reclamar. Mas também não adianta empurrar soluções fáceis como se fossem fórmula mágica. “Dolarize suas reservas”, dizem — para quem não tem nem poupança. “Invista na internet”, aconselham — como se bastasse vontade para empreender num país onde abrir uma empresa é uma maratona de obstáculos. A solução real precisa de políticas públicas, mas também de participação cidadã.

A crise pode ainda não ter chegado na sua casa. Mas ela chegou na casa de quem compra de você, de quem paga seu salário, de quem sustenta a economia real — aquela que pulsa nas feiras, nos pequenos comércios, nas mãos calejadas. É hora de se preparar, sim. Mas também é hora de se posicionar.

Porque a crise, quando vira regra, não é mais crise. É projeto.

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A Conta Chegou

A Conta Chegou

Imagine acordar um dia e descobrir que a luz da escola não acendeu, que o posto de saúde fechou mais cedo, que o asfalto da rua ficou esquecido num buraco sem fim. Agora imagine que esse dia tem data para acontecer: 2027.

Projeções do próprio governo alertam: o dinheiro para serviços básicos está acabando. Saúde, educação, segurança — tudo aquilo que forma o alicerce de uma sociedade — corre o risco de ser empurrado para o escanteio.

Não é uma previsão catastrofista de quem gosta de espalhar medo. É um aviso técnico, frio, matemático. A conta pública, que há muito tempo já vinha aos trancos e barrancos, agora corre sério risco de desabar de vez.

Falta planejamento. Falta responsabilidade. Falta, sobretudo, coragem para fazer as reformas que todos sabem necessárias, mas que poucos têm disposição de enfrentar.

E, como sempre, quem pagará essa conta? Nós. Cada um de nós, que depende do ônibus para trabalhar, do hospital para ser atendido, da escola pública para ensinar seus filhos.

Não é sobre números frios em relatórios técnicos. É sobre gente. É sobre a vida real.

Se 2027 parece distante, pense de novo. Estamos a menos de dois anos desse futuro que pode nos cobrar, com juros pesados, a omissão de hoje.

Ainda há tempo? Talvez. Mas é preciso que as decisões certas sejam tomadas — e com urgência.

Porque, do contrário, 2027 deixará de ser uma projeção para se tornar, tristemente, uma dura realidade.

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Corredores do Medo

Corredores do Medo

 

Era para ser só o som do sinal. O barulho seco que anuncia o recreio, o fim da aula, o começo de uma nova lição. Mas nas escolas brasileiras, o que se ouve com mais frequência é o silêncio tenso da insegurança. Em vez de risadas, há olhares desconfiados. Em vez de entusiasmo, o medo.

 

Na Escola João de Zorzi, em Caxias do Sul, esse medo ganhou forma e faca. Uma professora foi esfaqueada em sala de aula por dois adolescentes. Ela sobreviveu. A escola também, ainda que ferida — não apenas em sua estrutura, mas em sua função mais básica: proteger e educar. O crime, premeditado, levou à prisão dos jovens e à transferência para unidades da Fase. Mas e os demais? Os alunos que assistiram? Os colegas que estudavam nas salas ao lado? O trauma não se prende. O medo não é transferido de comarca.

 

Dados do PISA já anunciavam a tragédia em números frios: 10% dos estudantes brasileiros não se sentem seguros dentro das escolas. No trajeto até elas, esse número salta para 19%. Quase um em cada cinco. Quando o medo começa antes mesmo da aula, a aprendizagem já se perde no caminho.

 

Em João de Zorzi, pais pediram reforço na segurança e apoio psicológico. A direção atendeu. Mas será suficiente? Há anos os educadores gritam — às vezes sem voz — que estão sozinhos diante de uma realidade que transborda os muros da escola. E quando o medo se instala, não há conteúdo que o desinstale.

 

A sala de aula deveria ser abrigo, sementeira de sonhos, terreno fértil para a transformação. Mas virou palco de episódios violentos, de bullying persistente, de agressões silenciosas e explícitas. A professora de Caxias está em casa, tentando “entender o que aconteceu”. Nós também. Porque entender é o primeiro passo para mudar. Ou ao menos, tentar.

 

Enquanto isso, seguimos — professores, pais, alunos — como soldados da educação em tempos de guerra invisível. Resistindo, ensinando, aprendendo. E torcendo para que os corredores escolares voltem a ecoar apenas o som das descobertas, e não o sussurro do medo.

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O Crédito que Aperta, mas Não Solta

O Crédito que Aperta, mas Não Solta

 

O novo Crédito do Trabalhador, lançado pelo governo Lula, vem sendo vendido como um alívio para os brasileiros endividados. Mas, na prática, ele é apenas um nó um pouco menos apertado no pescoço de quem já mal consegue respirar financeiramente.

 

A proposta parece tentadora: empréstimos consignados com juros mais baixos do que os cobrados pelo mercado tradicional. O detalhe, no entanto, está na garantia exigida. Além do desconto direto na folha de pagamento, o trabalhador precisa oferecer até 10% do seu FGTS. Sim, aquele mesmo saldo que deveria ser uma reserva para emergências ou para o futuro.

 

Para muitos, a escolha se torna uma armadilha: pagar dívidas com juros abusivos de um lado ou comprometer parte do pouco que ainda possuem do outro. E assim, a dívida não some — ela apenas troca de dono, e a corda no pescoço se ajusta de um jeito novo.

 

O governo defende a iniciativa como uma forma de facilitar o acesso ao crédito e movimentar a economia. Mas a verdade é que o crédito fácil, sem planejamento financeiro e com garantias limitadas, só prolonga o endividamento dos mais pobres. Em vez de libertar, aprisiona.

 

O trabalhador, que já enfrenta instabilidade no emprego e um custo de vida crescente, agora se vê diante de um dilema: manter uma reserva mínima de segurança ou entregar tudo para quitar parcelas que podem se arrastar por anos. Se for demitido antes do fim do pagamento? A dívida continua. Se precisar do FGTS para algo urgente? O saldo já estará comprometido.

 

Assim, o “Crédito do Trabalhador” se assemelha a um presente de grego. Dá uma falsa sensação de alívio, mas no fim das contas, mantém o trabalhador exatamente onde sempre esteve: refém do sistema financeiro, pagando juros, sem fôlego e sem saída.